06/07/2007

O dançarino dos ladrilhos

Andava de um canto a outro na sala de ladrilhos pretos e brancos. À certa altura, guiava seus passos ora pisando somente em ladrilhos pretos, ora somente em brancos. Minutos depois esse hábito se tornara tamanha obsessão que ele já não conseguia mais pisar entre os ladrilhos, como se isso tivesse se tornado um ato de extremo mau agouro. Diversificava as seqüências de passos, pisava preto-preto-branco, branco-branco-preto, e despendia tanta concentração nessa tarefa que não percebia a quase-dança que estava fazendo. Quando se sentiu entediado, começou a contar os ladrilhos. Contou a faixa de ladrilhos pretos de um canto a outro da sala e depois a de brancos. Depois fez essa mesma contagem na transversal, mas não sabia como contar os ladrilhos partidos que serviam para preencher os espaços nos cantos da sala que não eram do tamanho de ladrilhos inteiros. Não sabia se considerava meio ladrilho como um ladrilho inteiro, e também não sabia se meio ladrilho era meio ladrilho ou se era dois quintos de um ladrilho ou, ainda, quinto oitavos de um ladrilho. Não conseguiu resolver sua conta e angustiou-se por não saber exatamente quantos ladrilhos poderiam haver no chão daquela sala, não conseguia ignorar os ladrilhos partidos. Parou, desviou o olhar do chão para o teto e ficou observando a lâmpada fluorescente acesa que lhe ofuscava a vista, fazendo-o contrair o sobrolho. Coçou o pescoço e depois meteu as duas mãos no bolso da calça. Desviou o olhar novamente para o chão e foi até o extremo da sala pisando a seqüência branco-branco-preto, aquela que mais havia lhe agradado. Virou-se deixando a parede atrás de si e olhou para as três cadeiras e a pequena mesa no outro extremo da sala. Colocou o lábio superior embaixo do lábio inferior e estufou as bochechas com ar. Tirou as mãos do bolso e as cruzou atrás da cabeça, servido-lhe de apoio, para se alongar inclinando-se para trás e olhando novamente para o teto. Recompôs-se determinado a contar os ladrilhos, ainda que houvesse aqueles partidos, sem, no entanto, saber como resolveria sua equação. Deu o primeiro passo pisando em um ladrilho preto, pois lembrava-se que os últimos dois que havia pisado eram brancos, olhando em volta e contando um por um. Lembrava que havia um modo de utilizar a multiplicação de forma a não precisar contar um a um, mas desconsiderou essa hipótese. Por volta do ladrilho 12 a porta da sala foi aberta. O médico entrou resignado, com uma expressão melancólica que não conseguia ocultar, sentou-se em uma das cadeiras da sala, curvou-se um pouco à frente, entrelaçou os dedos com os cotovelos apoiados sobre os joelhos e voltou os olhos para o sujeito em pé no canto oposto. O dançarino dos ladrilhos observou o semblante do médico, depois olhou novamente para a lâmpada, colocou o lábio superior embaixo do lábio inferior, estufou as bochechas com ar e desejou que a pior coisa que podia lhe acontecer naquela noite fosse não saber como contar os ladrilhos partidos.

Nenhum comentário: