O meu nariz vermelho
é muito mais do que um não ser eu
é muito mais do que uma máscara
um traje, um disfarce
muito mais do que charlatanice
simulação, impostura ou embuste
é muito mais do que isso
é mais do que ser um imbecil nas horas vagas
porque é tudo isso e nada disso
O meu nariz vermelho
é o fingir ser eu mesmo
a máscara do que eu sou de fato
meu disfarce que descobre a alma
é ludibriar com a sinceridade
é a esquisitice da naturalidade
é ofender elogiando o meu interlocutor
O meu nariz vermelho
é a alegria de me reconhecer
como um ser bobo e espontâneo
sabidamente ignorante
que aprendeu a desaprender os aprendizados
mas é triste também
porque é quando a consciência dá umas pontadas
e me molesta o tempo todo
me dizendo que eu não posso
ser eu mesmo tempo todo
porque o tempo todo
é muito tempo
O meu nariz vermelho
é a concessão para ficar nu da alma
para explorar a boa-fé do público
para atacar a compostura,
as convenções sociais
o decoro, a decência, o pudor
para ser um idiota e estúpido
e fazer o que der na telha
ainda que não haja teto nem telhas
O meu nariz vermelho
é a manifestação do meu estado
de permanente angústia e aflição
por ter acumulado muitas incertezas
por não ter entendido muito bem
dos assuntos dos homens e dos deuses
por ter engolido a contragosto
conceitos e comportamentos
receando a privação do convívio com outros
receando o cárcere e o ostracismo
O meu nariz vermelho
é a expressão desse ente contraditório que sou
que aceita e nega tudo
como uma lata de lixo que, inutilmente,
diz “não” para cada porcaria
que lhe é atirada para dentro
e então nega as coisas que tem dentro de si
mas não se desfaz delas
porque teria que tombar sua lata
aí viria alguém lhe erguer novamente
e colocaria de volta todas as porcarias
reconstituindo a lata de lixo
da mesma forma que antes
Isso tudo é o meu nariz vermelho
o que não significa muito
nesse mundo cheio de significados
muito mais importantes
mas ele é, sobretudo,
a habilidade de rir de si próprio
a percepção de como nós humanos
somos irresistivelmente engraçados
e de como nossas humanitíces
são cômicas, trágicas e
(por que não?)
lindas
06/07/2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário