06/07/2007

Sofás

O marido chega em casa um pouco mais tarde do que de costume. Sem se deixar ser percebido, ele se aproxima por detrás da mulher que está a lavar louças, abraça-a e sussurra no ouvido dela:

- Surpresa, meu amor! Comprei aquele sofá que a gente tanto queria!

Um mês depois o marido infeliz estava mortinho da silva. Esfaqueado pela mulher, ele sangrou até a morte sobre o tapete da sala, ao lado do sofá verde-abacate de tecido sintético e estrutura de madeira cutucante que havia comprado. Os vizinhos chamaram a polícia e ela foi levada para a delegacia. Durante o interrogatório a mulher teve um surto. Babando e tremendo, abandonada pela lucidez, ela arrancava os próprios cabelos, chorava e arranhava seu rosto bravejando contra um tal sofá que havia ganhado do marido – foi o que constou nos autos. Os policiais interrogaram as pessoas próximas do casal, todos disseram que a pobre mulher vivia comentando a respeito de um sofá grande, fofo, vermelho e florido que pretendia comprar. Uma das vizinhas disse que parou de freqüentar o lar do casal depois de ter visto um certo sofá verde-abacate ser entregue lá. A mulher aguarda o julgamento em um centro de recuperação para maníacos obsessivos compulsivos por sofás no centro da cidade.

Isso aconteceu há alguns anos atrás, antes do Osvaldo se mudar para uma nova casa. O Osvaldo é um amigo meu, o sujeito mais perfeccionista que conheço. Foi ele que me contou a história de uma decoradora que sofria da síndrome bipolar sofástica, condição que havia adquirido depois de não ter conseguido encontrar um sofá que combinasse com a decoração de seu apartamento. O Ovaldo planejou minuciosamente a compra do mobiliário para sua casa. Encontrou tudo que queria, exceto o sofá. Depois de meses tentando sem sucesso encontrar o sofá que queria, decidiu escrever um livro: “Em busca do sofá dos meus sonhos”. Este é o título de sua obra que já chegou a marca das 10 mil cópias vendidas. Sua busca pelo sofá terminou há dois meses. Ele comprou o mais barato e vagabundo que encontrou, depois, em menos de duas semanas, escreveu outro livro: “Manual prático para conviver em harmonia com seu sofá feio, barato e desconfortável”, já há vários dias na lista dos mais vendidos.

Temendo pela minha saúde mental, decidi doar meu sofá para um mendigo e mobiliei minha sala com cadeiras. Ontem eu me encontrei com esse senhor, ele estava todo machucado. Ficou assim depois de um confronto com fiscais da prefeitura que confiscaram seu sofá. O pobre homem me confessou que já não consegue viver sem o sofá e que cedo ou tarde dará cabo de sua vida.
Deus tenha piedade de sua alma!

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