A terra que ela é
é o macaco que eu sou
e seus sedimentos e fragmentações
é a repartição a que se submetem
todas as coisas que se manifestam na realidade
Projeto-me nela com a empatia absurda
de quem ama as mais ínfimas migalhas
de toda a matéria que se produz
de quem sabe que, cedo ou tarde,
será componente dela
e que comporá outros seres
que voltarão a terra
como parte da lei fundamental
da qual nada se isenta
Essa terra é o chão que piso
o chão que esqueci que piso
porque nossa relação é tão básica
que se torna opaca pelos seres que se movem
e me fascinam muito mais
mas ela se move, e eu me movo
ela menos, eu mais
como determina a dinâmica de movimentação
que se estabelece no planeta inteiro
e fará com que, em algum tempo,
eu não seja mais o mesmo macaco... e nem ela
fará com que os fragmentos que nos constituem
sejam espalhados por outros lugares
(próximos, remotos, profundos ou rasos)
sem nenhum propósito bem definido ou que importe
Sento-me na terra nua
já despreocupado em me sujar
desejando poder lhe consolar
por sua nudez, por seus traumas
e por sua condenação ao esquecimento
de todos que amassam sua superfície com os pés
Impotente, consolo a mim mesmo
porque o sentir é meu
e sou eu que dou conta da nossa relação
sobre quem que recairá as desgraças da terra
inexoravelmente
06/07/2007
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