24/03/2008

A tempestade

Quando a tempestade se aproxima, eu me retiro para o galho alto da castanheira e espero como um amante eufórico. A tempestade tem cheiro de morte trágica, ela é um pequenino apocalipse que acalma temporariamente minha alma ansiosa pela renovação. É a transição abrupta que não acontece a não ser em sentimento efêmero e ilusório. A felicidade que me faz sorrir vendo os turbilhões da tempestade não se dá senão pela perspectiva da destruição iminente de mim e de tudo que existe. O tempo se comprime no instante em que se vive e eu sinto a necessidade de um último perdão pelo que eu tenha feito de errado por ser uma criatura tola. Aqueles que amo aparecem como que dotados de vida diante de mim, tão forte é o sentimento que rompe com truculência o meu peito. Sinto que os fragmentos do que tentei inutilmente construir de mim serão finalmente carregados com a água para o infinito de um oceano distante, profundo e de tal maneira imenso que será um convite para se perder irreversivelmente. A tempestade que vem e passa é o ceifador que vem e não ceifa. A tempestade que a tudo envolve em sua movimentação frenética desperta o meu desejo de ser partido ao meio pelos raios e ser arrebatado para o mundo de lampejos que é o interior das tormentas. Quando se vai, abandona uma calmaria de tal forma asfixiante que sufoca os deuses da ira acordados pelos trovões e não deixa outra coisa senão uma tempestade irrefreável dentro dos meus sonhos sem forma e um grito aterrador transformado no milagre das lágrimas.

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