16/09/2008

Soleira

... receio que a próxima coisa que pode me acontecer,
o próximo evento reservado a mim pela natureza de existir...
seja a morte

Quem dá os passos pelas beiras
sente o que é cair, ainda que não caia

Antes a morte viesse sem sobreaviso
sem anunciação...
sem mostrar a cara vez ou outra
como ela tem feito comigo
Antes a morte viesse como um estalo de dedos
“Plec! Um a menos!”
“O que aconteceu?”
“Vai saber...”
assim, sem se deixar perceber
quieta, sorrateira... inexistente
Mas como a refeição que desprende seus aromas,
ela também deixa os seus no ar
o medo, o apavoro...
e este meu receio

E próximo passo depois de pensar na morte:
pensar na vida...

O que tenho feito de mim?
ou... o que o Alheio tem feito de mim?
(talvez um monte de tralha acumulada
porcarias largadas pelos anos que passam)
úteis até... não fosse a bagunça de tudo
... cada vez mais difícil de distinguir
as partes espalhadas (como se juntam?)

Minha vida tem acontecido mais entre parênteses

Tudo mundo morre, disso eu sei
(é justamente por saber!)
E é saber que me faz recear (evitar como?)
E pra que querer viver muito?
Que há de bom em viver muito?
Pra conseguir chegar onde se deve chegar?
(Mesmo que não se tenha idéia de onde é isso?)
Pra desfrutar mais das delícias de existir como ente corpóreo?
Isso faria muito sentido!
E por que razão não estão todos com cara de deliciados?
Talvez prefiram a contracapa dolorida
Enquanto se busca o tempo para que o outro lado possa ser vivido
Delícias em projeções, projeções, projeções...
Não acaba nunca? Deliciar-se é uma questão de tempo?

Viver pra viver os mesmos prazeres?... E até estes não cansam?
Já me cansei de tantos prazeres, e quando eu me cansar de todos?
Mas aí se se renovam, não se fica preso num círculo de desejo-satisfação?
Um círculo que não termina nunca e acaba-se por morrer frustrado?

Viver muito? Pra quê?
A vida que é muita não é uma vida de muitos prazeres adiados?
Há também os prazeres novos, que nunca sabemos que existem até que os vivenciamos
E há aqueles que sabemos que existem e talvez vamos gostar ou não deles
Daí faria sentido viver muito
Mas então nunca viveríamos o suficiente para viver todos os prazeres
e daí morreríamos frustrados?
É verdade que levei bastante tempo para gostar da chuva
Talvez com o tempo, eu não poderia gostar de tudo que existe?
...
Mas também é verdade que levei quase o mesmo tempo para detestar o barulho dos homens
Daí eu vou gostando e detestando as coisas ao infinito?
Quando acaba? Não acaba?

...a reflexão hedonista parece um poço sem fundo
prazeres, prazeres, prazeres...
“A vida não é só prazer!” – aponta alguém!
Quem disse isso?
Foi você, frade?
Você, freira?
Um asceta? Só pode ser um asceta! Mostre a cara!
Foi você, moderado? Alquimista que fica misturando dor e prazer calculadamente dosados?
Quem foi? Levante-se!
Foi você, criatura amedrontada pelos suplícios do Inferno?
Diga o que há de bom além do prazer!
Questione o prazer!
Mostre o além-explícito!
Mas faça alguma coisa!

Por que temer a morte?
Por que exaltar a vida?
Pra quê pensar nas duas?

E quantos não existem para, a esta reflexão, afirmar em bom tom:
“Pare de pensar nisso! Isso não leva a nada!”
E suas poupanças vão enchendo com os receios do futuro
E vão se cagando toda vez que a morte lhe sopra no ouvido!

A morte é o troço que está longe lá na frente
Mas apenas um passo atrás do nosso
Um só deslize e ela passa a rasteira

“Pare de pensar nisso e vá viver mais!”
A é? E começo por onde?
Com qual idiotice? Há tantas!
Simplesmente comendo umas castanhas?
Ou comendo o fígado dos meus irmãos macacos?
Dormindo até que me doam os ossos e músculos?
Montando nas fêmeas sem temor dos tabefes?
Fazendo estripulias até ter o corpo ser trucidado pela ira das normas?

Viver por um ideal?
Minha vida tem sido o descarte de todos ideais
geração de lixo e lixo e lixo e lixo
Já agora não me resta quase nenhum
a cada dia tenho jogado fora um convencimento
Talvez um dia me reste um corpo nu de tudo
a não ser pela tolice, que deve ser o carbono da alma

Viver por essas questões?
Ou suprimir as questões?
Torná-las boçais e baldias?
Mas é que elas me vêm na cabeça como fruta podre que cai da árvore
... e eu não consigo conter o fascínio pela arte de bater as botas
Que maravilha não se esconde do outro lado?
...
Mas é verdade que é igual meu fascínio pela vida
Pela vibração das cores no meio do verde monótono
Pela capacidade das coisas de serem o que são
Pelo movimento dos meus dedos
que à vezes fico observando abismado na frente da minha cara
e pelo o que não sei o que é...
e eu não sei o que são ambas
nem a vida
nem a morte

Fui um fracasso em estabelecer qualquer filosofia
que servisse de justificativa para o que faço
mesmo uma qualquer porcaria simplista
Nem corro, nem caminho
porque não aprendi nenhum dos dois
não vejo nenhuma trilha porque há muitas
tudo é trilha
e vou aos tropeços, porque sou fraco e hesitante
quando me canso olho para as copas das árvores
e me deslumbro
toda vez
com a luz que entra pelos espaços entre folhas
querendo perceber o imperceptível
ver o invisível
sentir o extra-sensorial
(por que não se revela de uma vez)
Quietação e euforia vão se revezando
na tarefa de moer as carnes do meu coração

Viver até Deus...
?

...

Minha vida tem sido mais reticências que tudo

Sei lá eu!
(essa é sempre minha conclusão de tudo)
E a essa falta de certeza, dou a minha boca calada.
Fazer o quê?
Se não há sentido exprimível para nada...

Então...
Se eu morrer como tenho receado
Se alguém se der ao trabalho de me enterrar
E se alguém tiver a ousadia de me lacrar o túmulo com uma lápide
Escrevam nela a mais sincera mensagem deste macaco
o epitáfio mais verdadeiro que se poderia fazer a meu respeito:

Morreu, morreu. Já era!
...

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