O dia estava bonito e saí da mata para ver o sol. Parei em frente a um girassol, e quando olhei para ele, estava olhando para mim, porque quando olho para as coisas, eu olho para mim, como se eu estivesse nelas, sendo parte delas, e elas de mim. Eu vi a flor, me vi e fiquei feliz. O girassol, então, como achando o dia bom e propício para pensar, me lançou uma questão: o que faz de mim um macaco, meus vícios ou minhas virtudes? Pensei, e respondi:
- Nenhum dos dois, o que faz de mim macaco é a biologia, eu não me macacazeio em função de vícios e virtudes, pois elas, antes de serem coisas, são pontos de vista.
Era claro que o girassol estava preocupado com uma questão dos homens, então prossegui:
- Os homens costumam falar no que os humaniza, como se eles precisassem ser um conceito criado deles mesmos; como se estivessem, por alguma tragédia, escapando a esse conceito e, assim, se sentindo num vazio indefinível. A biologia serviu para dizer “isso é uma espécie”, “eis a lógica dela” e assim criar um mundo de conceitos para cada uma delas. Se o humano é apenas mais uma espécie e a questão do que humaniza o homem é relevante, então a questão do que porcozeia o porco também deve ser, ou, do contrário, seria apenas a nova forma de arrogância, que alguns chamam de especismo. A biologia encerrou o cerimonial que colocou o homem espécie no lugar dos deuses, para que fosse possível louvar a si próprio, sua constituição animal e, sobretudo, sua razão, esta mesma que deu origem ao conceito de espécie humana. Assim, os homens louvam aquilo que os reduziu a um organismo de funcionamento lógico, e o que se reconhece de ruim nele se equivale ao que há de ruim em qualquer outra espécie. Daí se transformam os conceitos de vícios e virtudes em inerências da espécie. Assim, tudo que é do homem se torna natural como tudo que é do porco. E para abrigar essa naturalidade, curiosamente, cria-se um ambiente artificial, porém natural, que é uma selva própria para abrigar sua selvageria também própria, da qual se orgulham. E as coisas que não são dessa selva, vão acusar como sendo chatices, marasmos, tédios, etc. Mas não percebem que suas cidades horrorosas são monocromáticas e estúpidas, porém vistas através de olhos adoentados como o mais belo colorido, a criação mais bela, se não bela, apenas necessária para garantir a reprodução da espécie, mesmo se estúpida. Tem gente que admira a cidade, ainda que não tenham girassóis como você, em que me vejo e me fundo com o amor que ignora qualquer classificação taxonômica, porque é transgressor e também não respeita os limites criados entre espécies. Portanto, meu lindo girassol que brilha a luz do dia, a questão do que me torna um macaco não importa, porque respondê-la significa me separar de você, desviar meus olhos, esquecer de amar e preferir ficar cego. A toda questão, o questionamento da sua relevância; a toda questão, a própria questão. A questão não serve para guardar, mas para derrotar a própria questão. O macaco não falado é o macaco livre, e é assim que eu quero viver.
- Nenhum dos dois, o que faz de mim macaco é a biologia, eu não me macacazeio em função de vícios e virtudes, pois elas, antes de serem coisas, são pontos de vista.
Era claro que o girassol estava preocupado com uma questão dos homens, então prossegui:
- Os homens costumam falar no que os humaniza, como se eles precisassem ser um conceito criado deles mesmos; como se estivessem, por alguma tragédia, escapando a esse conceito e, assim, se sentindo num vazio indefinível. A biologia serviu para dizer “isso é uma espécie”, “eis a lógica dela” e assim criar um mundo de conceitos para cada uma delas. Se o humano é apenas mais uma espécie e a questão do que humaniza o homem é relevante, então a questão do que porcozeia o porco também deve ser, ou, do contrário, seria apenas a nova forma de arrogância, que alguns chamam de especismo. A biologia encerrou o cerimonial que colocou o homem espécie no lugar dos deuses, para que fosse possível louvar a si próprio, sua constituição animal e, sobretudo, sua razão, esta mesma que deu origem ao conceito de espécie humana. Assim, os homens louvam aquilo que os reduziu a um organismo de funcionamento lógico, e o que se reconhece de ruim nele se equivale ao que há de ruim em qualquer outra espécie. Daí se transformam os conceitos de vícios e virtudes em inerências da espécie. Assim, tudo que é do homem se torna natural como tudo que é do porco. E para abrigar essa naturalidade, curiosamente, cria-se um ambiente artificial, porém natural, que é uma selva própria para abrigar sua selvageria também própria, da qual se orgulham. E as coisas que não são dessa selva, vão acusar como sendo chatices, marasmos, tédios, etc. Mas não percebem que suas cidades horrorosas são monocromáticas e estúpidas, porém vistas através de olhos adoentados como o mais belo colorido, a criação mais bela, se não bela, apenas necessária para garantir a reprodução da espécie, mesmo se estúpida. Tem gente que admira a cidade, ainda que não tenham girassóis como você, em que me vejo e me fundo com o amor que ignora qualquer classificação taxonômica, porque é transgressor e também não respeita os limites criados entre espécies. Portanto, meu lindo girassol que brilha a luz do dia, a questão do que me torna um macaco não importa, porque respondê-la significa me separar de você, desviar meus olhos, esquecer de amar e preferir ficar cego. A toda questão, o questionamento da sua relevância; a toda questão, a própria questão. A questão não serve para guardar, mas para derrotar a própria questão. O macaco não falado é o macaco livre, e é assim que eu quero viver.
Um comentário:
Acho que me lembro de alguém me perguntando algo parecido com isso aí hehehehe
Não soube o que responder e, de fato, eu nunca tinha pensado sobre o que me humaniza mas sim sobre o propósito da minha existência. A pergunta até ficou martelando no travesseiro por me fazer lembrar de um episódio na faculdade uns dois anos atrás quando pegamos um punhado de cinzas e um amigo lançou a questão sobre o que nos separa de todo o resto se, no fim, tudo será simplesmente carbono. O que nos faz diferente da vaca que comemos se, depois de morta, a carne dela degenera tanto quanto a nossa? Pensei com tudo isso que resumir toda a vida em questões biológicas não era satisfatório. As emoções são reproduzidas por uma série de reações químicas, os pensamentos por sinapses do cérebro, o tato por uma questão puramente biológica. Mas o que move e dá origem a isso, não é explicável por simples reações químicas. Daí questiono sempre o que somos. Concluí que não sou meu corpo, minhas emoções, meus pensamentos, minha consciência, minhas idéias, sensações ou percepções. São apenas minhas percepções, meu pesamento, meu corpo, minha consciência... entao... quem sou eu que chama tudo isso de meu? Quem é o "eu" dono disso tudo aí? O que move a matéria é algo maior do que a própria vontade humana, isso explicaria o fato de porque é que o homem não consegue dar vida àquilo que já foi morto ou criar a vida, mas sim capaz apenas de reproduzí-la, seja por meios naturais ou artificiais.
Talvez isso seja apenas um antigo e inútil questionamento deixado de lado na pós moderdidade, sobre o que somos, de onde viemos e para onde vamos. O propósito da vida é viver, para onde vamos não interessa, o importante é saber onde estamos e porquê, pois viver sem razão é andar no escuro sem saber onde estão os móveis.
No fim das contas, se o que humaniza o homem sao virtudes, vícios, biologia e química, não interessa realmente. Apenas é fato que isso tudo é inerente aos homens justemente por tais conceitos terem sido criados por eles mesmos, não pelo macaco, porco ou vaca. Não há homem tão virtuoso que não tenha vícios, não há homem tão cheio de vícios que não possa nele ser encontrada uma virtuosidade que seja. Alias... primeiramente, que são vícios? Que são virtudes? São caracteristicas de relação antagônica como preto e branco, roxo e laranja, morte e vida, tristeza e felicidade? Sim, porque não conhece a felicidade aquele que não sabe o que é tristeza. É o vício o oposto do que é a virtude ou seria apenas parte do que se opõe? Seja lá o que for, é tudo pré definido pela incansável mente humana.
Macaco, se te enchi o saco, vai reclamar com quem me lançou a pergunta subitamente em uma manhã no começo da semana.
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