Certo dia estava andando por outras bandas da cidade à procura de um lugar em que, segundo alguns cães de um bando que conheci, costumavam depositar sacos cheios de carnes já passadas, mas ainda boas para comer. No caminho, tive que cruzar uma longa e larga calçada cheia de gente. Entre a multidão, notei que havia um homem que falava aos transeuntes, sem que estes lhe dessem muita atenção. Vira e mexe esses sujeitos aparecem por aí, em esquinas, becos, praças e parques falando pelos cotovelos. Eu gosto deles, primeiro, porque muitos deles vivem como nós, cães; segundo, porque sempre trazem uma novidade interessante: um apocalipse ali, a vinda de um homem lá, o retorno do reino “x” acolá, entre tantas outras. Por isso resolvi parar na frente do homem – eu era o único – para ver se ele tinha alguma novidade. Ele dizia:
- ...vocês que estão apaixonados, não sejam tolos, livrem-se desse sentimento. Dizem ser um sentimento natural, mas não dêem credito, porque ele é tão natural como o ódio, e tão destrutivo quanto, porque não revela a verdade das coisas. Não se deixar apaixonar é não se deixar enganar. Alguns podem dizer que a essência da paixão é o amor, mas não creiam, nele não há sequer essência, a não ser que a ilusão possa ser considerada a essência de algo ou cegueira como a essência do enxergar. Mas cuidado para não ceifar o amor e se tornar árido como um deserto. A paixão é o amor que falhou, que confundiu o espírito com suas vestes e o verdadeiro com o falso. A paixão não é o excesso de amor, são os excessos dos desejos de quem não vê a verdade do amor. É claro que se aceita a paixão e a enaltecem como sendo o ânimo da vida. É de se esperar que num mundo de ilusões, esse sentimento pareça dar o tangível do real, mas, antes, ele é mais uma peça desse quadro fantasioso que fizemos de nossas vidas. Onde a mentira triunfa, a verdade parece loucura. A paixão também pode parecer loucura, mas é parte da normalidade, porque quanto mais mentiras temos, mais delas precisamos, mais delas dependemos, mentiras maiores demandamos para podermos sustentar a lógica absurda da nossa razão doente, doente porque é amputada do espírito. E sem espírito nos colocamos neste mundo; sem espírito perambulamos por essas ruas nojentas; sem espírito saímos todos os dias para trabalhar na edificação duma grande obra que é a destruição de nós próprios; sem espírito nos colocamos diante de Deus achando que Ele falará por meio dos encantamentos da matéria; sem espírito nos arriscamos a amar, e o amor sem espírito é a paixão, é o amor da normalidade. A verdade construída tem nome, e se chama falsidade, a outra só o amor pode ver. Quem ama a verdade, vai querer vê-la em todos os seres cheios de vida, e assim vai amar imensamente. Amor e verdade andam juntas, indissociáveis, só quem vê a verdade pode amar, e só quem ama pode ver a verdade. O amor é simples como ver ou ouvir, não carece do uso de cerimoniais estúpidos para se manifestar, de penteados bem esculpidos, de jóias brilhantes, do cheiro roubado das flores, de ardis discursivos, do colorido das roupas ou de qualquer outro signo que tragamos no corpo. O único signo do amor é o próprio amor, porque o amor vê o próprio amor, ele se reconhece porque ele faz parte de uma coisa só, quando o amor está diante do amor é uma fusão, a união. O amor não pertence a ninguém, ninguém tem a propriedade do amor, também ninguém ama a seu jeito, porque só existe um jeito de amar. Não existe uma forma de demonstrar o amor, porque quem estiver cheio de amor, só o amor demonstrará, seja lá que forma tenha. Portanto, apaixonados, acordem, despertem, abram os olhos! E àqueles que nunca se apaixonaram, digo: não anseiem por isso, a paixão não é o cume de nossas vidas, o lugar mais alto e mais belo para se estar, mas sim um lugar nas alturas do delírio sustentado por andaimes mal armados. Quem se apaixona, está sozinho na multidão, e morto quando está sozinho. Quem ama está entre irmãos na multidão, e com Deus quando está só...
Não, nenhuma novidade.
- ...vocês que estão apaixonados, não sejam tolos, livrem-se desse sentimento. Dizem ser um sentimento natural, mas não dêem credito, porque ele é tão natural como o ódio, e tão destrutivo quanto, porque não revela a verdade das coisas. Não se deixar apaixonar é não se deixar enganar. Alguns podem dizer que a essência da paixão é o amor, mas não creiam, nele não há sequer essência, a não ser que a ilusão possa ser considerada a essência de algo ou cegueira como a essência do enxergar. Mas cuidado para não ceifar o amor e se tornar árido como um deserto. A paixão é o amor que falhou, que confundiu o espírito com suas vestes e o verdadeiro com o falso. A paixão não é o excesso de amor, são os excessos dos desejos de quem não vê a verdade do amor. É claro que se aceita a paixão e a enaltecem como sendo o ânimo da vida. É de se esperar que num mundo de ilusões, esse sentimento pareça dar o tangível do real, mas, antes, ele é mais uma peça desse quadro fantasioso que fizemos de nossas vidas. Onde a mentira triunfa, a verdade parece loucura. A paixão também pode parecer loucura, mas é parte da normalidade, porque quanto mais mentiras temos, mais delas precisamos, mais delas dependemos, mentiras maiores demandamos para podermos sustentar a lógica absurda da nossa razão doente, doente porque é amputada do espírito. E sem espírito nos colocamos neste mundo; sem espírito perambulamos por essas ruas nojentas; sem espírito saímos todos os dias para trabalhar na edificação duma grande obra que é a destruição de nós próprios; sem espírito nos colocamos diante de Deus achando que Ele falará por meio dos encantamentos da matéria; sem espírito nos arriscamos a amar, e o amor sem espírito é a paixão, é o amor da normalidade. A verdade construída tem nome, e se chama falsidade, a outra só o amor pode ver. Quem ama a verdade, vai querer vê-la em todos os seres cheios de vida, e assim vai amar imensamente. Amor e verdade andam juntas, indissociáveis, só quem vê a verdade pode amar, e só quem ama pode ver a verdade. O amor é simples como ver ou ouvir, não carece do uso de cerimoniais estúpidos para se manifestar, de penteados bem esculpidos, de jóias brilhantes, do cheiro roubado das flores, de ardis discursivos, do colorido das roupas ou de qualquer outro signo que tragamos no corpo. O único signo do amor é o próprio amor, porque o amor vê o próprio amor, ele se reconhece porque ele faz parte de uma coisa só, quando o amor está diante do amor é uma fusão, a união. O amor não pertence a ninguém, ninguém tem a propriedade do amor, também ninguém ama a seu jeito, porque só existe um jeito de amar. Não existe uma forma de demonstrar o amor, porque quem estiver cheio de amor, só o amor demonstrará, seja lá que forma tenha. Portanto, apaixonados, acordem, despertem, abram os olhos! E àqueles que nunca se apaixonaram, digo: não anseiem por isso, a paixão não é o cume de nossas vidas, o lugar mais alto e mais belo para se estar, mas sim um lugar nas alturas do delírio sustentado por andaimes mal armados. Quem se apaixona, está sozinho na multidão, e morto quando está sozinho. Quem ama está entre irmãos na multidão, e com Deus quando está só...
Não, nenhuma novidade.
Um comentário:
êita quantas revelações, respostas e orientações que esse moço despejou, né não meia-dúzia? Bem que eu gostaria de trocar dois dedos de prosa com ele....eu lhe diria:
o equílbrio deve ser uma coisa chata (estática?)?
E a verdade? Coitada, igualmente monocromática?
é por isso que eu gosto mesmo é de comer com coentro.
De ficar com as perguntas
Afinal, o que nos humaniza mais: nossos vícios ou nossas virtudes?
êita mundo doido de meu deus.
Vai ver que eu num entendi nada, né meia-dúzia. hummmmm...é mesmo. a regra é clara: amor,amor versus paixão, paixão, e se derrubar na área é penalti.
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