Todos os homens são tolos revestidos pelas vestes da certeza, uns mais, outros menos. A certeza é originada de diversas formas, pode ser pela religião, pela tradição, pelas crenças, pela ciência ou por qualquer outro meio que convença um sujeito de que algo é verdade ou não. Em todo lugar, em todos os tempos, não se sabe por quê, houve quem se preocupasse em estabelecer os fundamentos da realidade a partir das estruturas lógicas do nosso pensamento. A atribuição desses sujeitos inquietos era a de forçar a passagem dos elementos da existência através da cognição para, a partir daí, estabelecer fórmulas, conceitos, leis, e outras modalidades de certeza. Nesse processo, muitas das práticas foram sendo refinadas e as certezas se tornaram mais fundamentadas pelas lógicas cada vez mais apuradas. Isso significa que para cada tempo, em cada lugar, uma certa estrutura da percepção e da cognição humana era utilizada para se estabelecer o que era verdade ou não. Quem hoje poderia conceber a existência de um deus chamado Poseidon que governaria os mares e oceanos? Pois houve uma época em que isso era perfeitamente plausível, pois, sabe-se lá o porquê, podia ser concebido sem maiores problemas pelos homens. Nessa sucessão de novas formas de pensar, de sentir, de apreender e concluir, institucionalizamos uma metodologia para se proceder quando quisermos estabelecer uma verdade, é o que chamamos, genericamente, de ciência, simbolizada pela universidade, lugar onde os homens praticam essa metodologia exaustivamente para estabelecer o maior número verdades possível. A universidade é a materialização máxima da angústia do homem causada por sua busca infatigável em compreender as coisas e fenômenos em seu redor. A razão é a pior tragédia do ser humano, é seu câncer de nascença que lhe causa todas as perturbações das quais sofre, e todas as instituições criadas por essas perturbações são unidades terapêuticas para tratamento de consternações e euforias. Mas mesmo esse objetivo nem sempre é atingido com o acúmulo de certezas pelo indivíduo, que supostamente amenizariam sua angústia, é atingido também pela eminência que é atribuída ao sujeito pertencente à instituição somente pelo fato de pertencer a ela e ali desenvolver suas atribuições de pesquisador, então passam a gozar de prestígio, de poder, e de outras coisas que ajudam a tornar mais agradável a existência terrena. Não se sabe se um sujeito quer pertencer a uma congregação, seja ela científica ou religiosa, para estudar um assunto qualquer ou para brilhar aos olhos dos outros, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Pudera, se não se sabe o que se está fazendo aqui na Terra, como definir os objetivos da própria vida? Há concepções muito convincentes a sobre a existência humana e seus propósitos. Há religiões, seitas e escolas místicas que dão conta disso. Mas não são raras as concepções que não passam pelo crivo da metodologia científica, por meio da qual não podem ser estabelecidas como verdade. Não bastasse isso, muitas dessas concepções são contraditórias, não só em sua própria fundamentação, mas também em comparação com outras concepções. Que faremos, então, sujeitos como eu que não foram doutrinados numa religião, não se satisfazem com as verdades científicas e nem são presunçosos o suficiente para negar a existência de Deus e de seus propósitos para os homens e as coisas do mundo? Ora, não há outra coisa a fazer senão ser um tolo, um pascácio, um tongo, um sorongo, um bocó, um aparvalhado, um pandorga, um pancrácio, seja lá qual for termo utilizado para definir aquele que não tem juízo, razão ou fundamento. O tolo é aquele sujeito das vestes da certeza cheias de retalhos, remendos, pregas mal armadas, costuras perfeitas e mal feitas e com cores de diversas tonalidades. O tolo é aquele que não se importa em deixar rombos nas vestes que lhe expõem as partes que causam encabulamento. O tolo é o sujeito que fica nu das certezas quando lhe convém e enfeitado como um rei francês quando assim o desejar. O tolo é o demolidor e construtor das sintaxes que explicam e confundem conforme as determinações do seu estado de espírito. O tolo é o estado natural do ser humano curioso desbravador das coisas do mundo, que desvenda os mais inconcebíveis segredos da existência. Somos todos tolos, mas muitos de nós aprendemos a nos confundir com as vestes. Viver a tolice é viver o desregramento necessário para prosseguir com as descobertas que se dão por diversos meios além dos laboratórios científicos e dos rituais religiosos ou pagãos. O tolo conhece e desconhece Deus. Sabe e ignora os desígnios dos homens na Terra. Reconhece que além de seus olhos, tato, ouvidos, paladar, olfato, cognição, lógica, razão, pode haver outros instrumentos ainda não institucionalizados para conceber Deus e o propósito das coisas. Mas reconhece também que podem não existir esses outros instrumentos e que ficaremos eternamente presos aos nossos escassos sentidos sem poder saber o que nossa angústia existencial nos impele a saber. O tolo é a figura da ingenuidade que deita fora conceitos pré-estabelecidos e resultados de experiências anteriores, que aprende com coisas novas e coisas velhas, e as velhas não são velhas porque são esquecidas e retomadas o tempo todo, tornando o mundo um eterna novidade. A propriedade elementar do tolo é a falta de posição numa discussão, ele somente questiona para se chegar ao fundamento da discussão, como ela nunca é descoberta, porque toda discussão deve ter como fundamento básico o propósito da existência, ele não julga e nem chega a nenhuma conclusão. A tolice é a virtude que os seres humanos podem induzir para tentar chegar à resposta ansiada, e se ela não chegar, ao menos serão felizes como são todos os tolos, os amalucados, os aparvalhado, os apatetados, os atolados, os atombalados, os atoleimados, os basbaques, os bobos, os bobocas, os bocós, os bolônios, os boquiabertos, os débeis, os lesos, os lorpas, os pacóvios, os palermas, os palúrdios, os paspalhões, os pategos, os petolas, os sorongos, os tontos, os balarminos, os beldroegas, os pancrácios, os pandorgas, os papalvos, os papa-moscas, os pascácios, os tongos...
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