06/07/2007

O poema do macaco triste

Talvez eu precise perder tudo
para descobrir que eu não preciso de nada
Talvez eu precise me livrar da selva que me abriga
das frutas, das folhas, das flores
e da macaca-aranha que me chama à noite e diz que me ama
Mas serei feliz?
E se eu acordar e estiver na caatinga sem nada?
E se não tiver nem selva, nem comida
e nem ninguém pra dizer que me ama?
Como saberei?
E se, em verdade, eu precisar de outras coisas?
e então?
Sim, talvez eu precise trocar as coisas que tenho
mas como saberei pelo quê devo trocar minhas coisas
se não sei o que me deixa feliz?
E se eu precisar de mais?
Sim, e se eu precisar de mais?
Mas tenho um pouco, ao menos deveria estar um pouco feliz
E se o pouco que tenho for nada?
E se eu já tiver muito?
Há tantos homens que comem barro
e bebem água saloba
para matar fome e sede!
E isso? Isso sim é não ter nada!
Certamente não são felizes esses tantos
Mas e se forem?
Terei eu que comer barro e beber água saloba para ser feliz?
Mas se eu me livrar de tudo
e então me tornar infinitamente mais triste e me arrepender?
Como vou reaver o que perdi?
E se nada me deixa feliz?
O que me resta?
Que farei eu neste mundo?
...
Não, exaltei-me
Sei que sou feliz em certos momentos
Mas por que somente em certos momentos?
O que há de errado?
E se a felicidade for o porção de alimento
para a fome, que é a tristeza
e que sacia até que a barriga ronque novamente?
E se a felicidade for um capricho?
Por que a quero tanto, afinal?
Não depender dela seria muito melhor
mas melhor como?
Ser feliz sem felicidade?
É um paradoxo!
...
Preciso definir:
Quero-a muito, ponto...

Neste momento sinto um ímpeto
de destruir o que acabei de escrever
Eliminar a incerteza e dissolvê-la no esquecimento
Para quê tanto questionamento?
Estou triste, apenas isso
Meu questionamento é um mal-estar
Que eu esqueça isso
e que amanhã, quando eu acordar
eu esteja feliz
e que o porquê não importe

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